sexta-feira, novembro 24, 2006

Vá pela sombra...

Email do escritório de imprensa do governo israelense adverte aos jornalistas que trabalham no país: existe um plano de seqüestrar repórteres judeus israelenses. E o plano tem data: amanhã, sexta-feira. Que se cuidem os arautos!

Às vezes esse mundo parece cômico demais para o meu gosto...!

[BOTA-DENTRO] E depois de curto e nada tenebroso outono, estou de volta - porque com mãe e irmã aqui por perto, o blog tinha que ficar pra depois!

terça-feira, outubro 24, 2006

O presidente e eu

Não, não vou falar do presidente Moshe Katzav e das peripécias sexuais dele. Até pensei em fazer um post a respeito, porque o assunto está em todas as conversas informais aqui em Israel. Todo mundo quer saber se ele estuprou as tais mulheres, se roubou mesmo dinheiro público etc. Mas a minha política aqui vai ser a de - por enquanto - não entrar nesse assunto. Já basta ter falado a respeito na RFI semana passada, aqui.

Vale dizer que esse papo de presidente está realmente movimentando a política por aqui, com indicações de nomes novos para ocupar a residência presidencial. E a lista tem nomes como o de Shimon Peres (que perdeu em 2000 para Katzav e, como dizem as más línguas, perde até eleição pra síndico!), Elie Wiesel (sobrevivente do Holocausto e prêmio Nobel da paz) e muitos outros. Mas por enquanto nada é oficial, porque na prática o Katzav continua no trono.

Tudo isso para dizer que o título desse post não tem nada a ver com Katzav e muito menos com peripécias sexuais de figuras públicas. O presidente do título é outro. Estive hoje com Itzhak Navon, em uma entrevista rápida mas muito bacana no escritório dele aqui em Jerusalém. Navon foi o quinto presidente de Israel, o primeiro sefaradi a ocupar o cargo, entre 1978 e 1983.

Conversamos sobre o ladino, tema do meu texto na próxima edição da Revista 18. Ele cresceu em Jerusalém na década de 1920 em um bairro onde o ladino - idioma dos judeus sefaradim - era falado nas ruas, em uma época em que os imigrantes se concentravam em locais fechados como guetos. Essas coisas não existem mais - hoje sefaradim e ashkenazim estão dispersos e misturados.

Navon cresceu ouvindo o ladino - como ele disse hoje, para aprender e manter um idioma, uma pessoa tem que ouvi-lo "da fralda até mortalha". E a entrevista, minha primeira exclusiva com uma personalidade da política israelense (já estive em coletivas e eventos com o Sharon, o Olmert, o Peres e o Bibi), foi em ladino!

A entrevista correu bem e, no final, depois que eu tirei para a matéria algumas fotos dele cercado de livros por todos os lados, pipocou de repente, daquele senhor de 85 anos, ex-presidente de Israel, a pergunta: - Quer tirar uma foto comigo? Eu tirei! E você já viu - o presidente e eu!

domingo, outubro 15, 2006

Chove, chuva

Correria para tirar roupas do varal, fechar as janelas, achar o guarda-chuva desaparecido há meses, tirar da mala de inverno uma blusa quente para poder sair de casa... Está caindo a primeira chuva do ano novo judaico em Israel.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Que venha Simchat Torah!


[CORRERIA] Estou sem tempo agora, mas prometo escrever depois sobre esse chag!Enquanto isso, podem ler o comentário do autor do desenho acima, o ilustrador dos comics Dry Bones. Shabat Shalom!

domingo, outubro 08, 2006

Sucot? Cabanas?

Chegou Sucot, o Carnaval israelense. Não, não tem nada a ver com folia, pula-pula, serpentina e confete. Sucot é a festa das cabanas. Mas, como no Brasil, onde o ano só começa depois do Carnaval, aqui o ano judaico só começa de fato depois de Sucot. As aulas nas universidades (e as minhas, no terceiro ulpan de hebraico que vou fazer!) começam dia 22, por exemplo.

É bem por aí... Essa época, que também marca o fim do verão e do calor, é tempo de festas. Tem Rosh Hashaná (ano novo), depois vem Yom Kipur (dia do perdão), com o tão falado jejum, e logo a semana de Sucot, que acaba com Simchat Torá, a festa que celebra a alegria do povo judeu em receber as tábuas sagradas no Monte Sinai. Depois de tudo isso, finalmente o ano começa, mesmo!

Mas... festa das cabanas? Bom, em poucas palavras, Sucot é a festa da colheita. Fácil de entender: aqui em Israel é "o período no qual a produção dos campos, pomares e vinhas é colhida" (do Chabad, aqui). Como o site explica, para que as pessoas não se esqueçam de D's no momento de alegria pela fartura nas colheitas, deixam a casa durante uma semana e moram em cabanas! Ah, cabanas!

O barato desse feriado é passear por Jerusalém (ou por qualquer cidade israelense com população religiosa) e ver, nos terrenos, nos jardins, em volta dos prédios, as sucot, as tais cabanas, montadas para a festa. As pessoas comem e dormem nas cabanas durante toda a semana de Sucot! Quem mais curte a farra são as crianças - como no meu prédio (onde fizeram quatro cabanas).

E como eu contei no pé do último post, passeando por Mea Shearim, bairro ultraortodoxo judaico daqui de Jerusalém, resolvi parar e dedicar meia hora para fazer essas fotos. Gostei do resultado. No mesmo dia, à noite, fui à Cinemateca ver Ushpizin (palavra em aramaico para "convidados") - no filme, as primeiras cenas mostraram exatamente o que eu tinha fotografado mais cedo - a minuciosa escolha das "quatro espécies"!

Aliás, recomendo o filme, especialmente para esses dias de festa das cabanas. A película é passada durante o feriado de Sucot aqui em Jerusalém e mostra a rotina de um casal que se reaproximou da ortodoxia e, às vésperas do feriado, não tem um centavo pra montar a sucá e comprar as "quatro espécies". Eles acabam recebendo convidados especiais...

Então, chag sucot sameach!

[DIDÁTICO] Do meu shutaf, o Bean, "nove maneiras de saber que é Sucot", aqui.
[HQ] Do Dry Bones uma tirinha bem-humorada sobre Sucot (e uma explicação).

[TELONA] Do filme Ushpizin, o site oficial, com várias informações, aqui.
[RELIGIÃO] Mais sobre Sucot no site do Chabad, aqui. "Quatro espécies"? Aqui!

sexta-feira, outubro 06, 2006

[curtas do 23a]
Paz, gasolina e palestinos

Da série "notícias que precisam ser sabidas"

De hoje no Jerusalem Post: "Paz e Autoridade Palestina firmam contrato de fornecimento de gasolina". Explicando: a Paz é uma empresa israelense de combustíveis. O contrato é oficialmente o primeiro entre uma empresa de Israel e a Autoridade Palestina desde que o Hamas assumiu o governo por lá, em janeiro. O acordo foi assinado ontem à noite e, como a matéria diz, acontece em um momento em que negociações políticas entre Israel e os palestinos estão congeladas. Também segundo a matéria do jornal, o ministro interino das Finanças da AP, Samir Abu Aisha, contou que foi ameaçado de morte por conta do contrato...

Bom fim de semana, Shabat Shalom. Chag Sucot Sameach.

[FOTOS] Fiz um passeio ontem de moto por Mea Shearim, o bairro ultraortodoxo judaico de Jerusalém. Véspera de Sucot é dia de comprar as "quatro espécies". Em breve (quando a internet de casa deixar!) vou colocar as fotos que fiz por lá!

[OUTRA FOTO] A Tici, gaúcha linda e chamudá que mora aqui em Jerusalém também (e que eu conheci no Rio há alguns anos!) colocou no flog dela uma das minhas fotos do Kotel. A propaganda não é da minha foto, mas das coisas lindas que ela escreve e das fotos ótimas que ela tira! Tici, adoro você!

domingo, outubro 01, 2006

Águas de março

Israel vai saindo do verão. Primeira medida: voltar, agora, às duas da manhã do domingo, os relógios para 1AM. Acaba o horário de verão, acordamos no escuro ainda. Em algumas semanas, começa o frio. Pelo menos agora Israel e o Brasil têm 5 horas de diferença horária, apesar dos 17 mil quilômetros de sempre.

Tzom kal aos que jejuam hoje. Gmar chatimá tová. No Brasil, é dia de eleições - votem com consciência dessa vez...

[PARECE QUE FOI ONTEM] Outro dia o verão estava só começando, dando um sopro quente desavisado em uma manhã de junho. O tempo está voando...
[FÉ EM IMAGENS] (update) Estive no Kotel na madrugada de domingo, antes do amanhecer, até que ficou claro na primeira manhã de horário de inverno. Fiz algumas fotos por lá, de muita gente diante do Muro. Rostos e gestos de fé. Uma foto aqui. Todas aqui.

quinta-feira, setembro 21, 2006

De repente, 5767

Ano novo em Israel não tem o mesmo clima de ano novo no resto do mundo. Não tem neve porque cai no verão - ainda que seja o finzinho do verão. Não tem Papai Noel e corrida às lojas porque aqui não existe Natal. E, claro, a contagem é bem outra. O povo judeu entra, a partir do próximo fim de semana, em 5767.

Ano novo aqui em Israel tem um sabor de festa familiar. Não é como no mundo todo, onde o reveillon é momento de tomar porres, pular ondas e fazer promessas e planos que nunca se cumprirão! Ano novo judaico é evento familiar - suspeito que por isso sinto tanta falta das comemorações com a minha avó e toda a minha família, em São Paulo...

Ano novo em Israel é tempo de fazer um balanço pessoal e de, entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, os chamados Yamim Noraim (dias terríveis) pensar o que se fez de bom e de ruim no ano que vai acabando. E de, no Dia do Perdão, pedir desculpas - a D's e às pessoas que nos cercam - pelas coisas ruins que fizemos (quem não faz?)

Ano novo em Israel também é momento de balanço da população. É nessa época que o Escritório Central de Estatísticas revela quantos somos. Somos 6 milhões, novecentos e noventa mil e setecentos israelenses. Somos 5,3 milhões de judeus, somos 1,4 milhão de árabes. É época de saber o crescimento da população, que se mantém em 1,8% ano ano desde 2004...

Ano novo em Israel é tempo de mensagens do presidente Moshe Katzav, do primeiro-ministro Ehud Olmert, que são espalhadas, distribuídas, traduzidas e lidas por judeus no mundo todo. É tempo de maçã com mel, do toque do shofar, cabeça de peixe, bolo de mel...

De repente, é ano novo em Israel. De repente, 5767. A todos os judeus que passam por aqui e a todos aqueles que não são judeus, shaná tová umetuká - ano feliz e doce. O mundo faz aniversário, é tempo de que todos comemoremos!

[ÍNTEGRAS] Se você quiser ler a íntegra das mensagens de Rosh Hashaná do premiê e do presidente, deixe o email nos comentários e eu mando!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Onze de setembro todo dia

Nos últimos dias estive pensando sobre o que escreveria para marcar o quinto aniversário do onze de setembro. Lembro que em 2001 recebi no consulado dos EUA um visto para viajar para Nova York que valia entre o fim de agosto e o fim de setembro. Por uma dessas circunstâncias da vida, não fui. Fiquei em São Paulo e cobri de lá o nine-eleven.

Estava no ônibus, a caminho do trabalho em uma terça-feira ensolarada de rodízio, quando meu pai ligou no celular avisando que uma das torres gêmeas tinha sido atingida por um avião. Desci do ônibus e tomei outro caminho. Havia muitos boatos e bastante desinformação. No consulado norte-americano em São Paulo, portas fechadas.

Cinco anos se passaram e hoje estou em outra realidade. Vivo há dois anos e pouco em um país que conhece de perto a ameaça terrorista travestida de suicídios jihadistas. A estratégia ganhou força na segunda intifada, que começou um ano antes dos atentados às torres gêmeas, no setembro da visita de Ariel Sharon que foi usada como pretexto para a revolta.

Cinco anos depois, às vésperas de mais um onze de setembro, uma pesquisa publicada no Jerusalem Post mostra que mais e mais palestinos apóiam o terrorismo. Não é de se surpreender, verdade seja dita. Depois da segunda guerra do Líbano e dos resultados do conflito que se estendeu por trinta e poucos dias, esperar um apoio amplo à paz entre palestinos é sonho.

E a sensação é a de que sonhar com a paz é perda de tempo em Israel. Já virou lugar-comum ouvir de israelenses que eles deixaram de acreditar na paz. Sem generalizações. Apenas um sentimento compartilhado de cansaço com um conflito que não se estende, mas se arrasta, há longas décadas. Gerações já viram e entenderam que paz é motivo de risada...

Cinco anos depois do onze de setembro, morando em Israel, observo as coisas a partir de outra perspectiva. O susto com as imagens que pareciam de filme há cinco anos passou. Aqui em Israel lida-se com o assunto segurança diariamente - ao subir em ônibus, ao entrar em qualquer edifício, ao caminhar pela rua.

Um texto muito interessante do Jerusalem Post, no caderno de fim de semana, tenta explicar porque o approach israelense não consegue adeptos nos EUA do nine-eleven. Comparar os dois países é impossível - os números de lá são esmagadoramente maiores do que os daqui em população, circulação de pessoas em aeroportos etc...

Mais: aqui em Israel vivemos a necessidade de dedicar atenção a qualquer objeto suspeito. O cidadão sabe que ignorar uma mochila esquecida num ônibus pode significar a diferença entre estar ou não vivo no segundo seguinte. O israelense sabe como e a quem recorrer em um caso assim. E, o mais importante: recorre, de fato.

Onze de setembro... Qualquer pessoa, em qualquer ponto do planeta, lembra o que estava fazendo quando as torres foram atingidas. Em Israel a memória de atentados terroristas e de pessoas próximas que foram mortas em cafés ou viajando de ônibus fazem parecer que vive-se aqui um onze de setembro a cada dia.

quarta-feira, agosto 23, 2006

... e quem perdeu a guerra?

Se a questão é mesmo essa - quem ganhou a guerra - o escritor israelense David Grossman dá uma resposta à altura*. Uma das personalidades de destaque em Israel, autor de diversos livros e conhecido pacifista, Grossman é pai de um dos soldados mortos durante os conflitos que se desenrolaram no sul do Líbano nos dias que antecederam o cessar-fogo. O texto, publicado no francês Le Monde, é uma carta ao filho. No mínimo, dá a noção de quão humana é a guerra. Um trecho: Você dizia que caso houvesse uma criança no carro que você acabava de deter, você tentava antes de tudo tranqüilizá-lo e fazê-lo rir. E você se lembrava (...) do medo que você lhe causava, e do quanto ele o detestava, com razão. Contudo, você fazia todo o possível para tornar-lhe mais fácil aquele momento terrível, enquanto você cumpria o seu dever, sem compromisso.

E sobre o Líbano, algumas poucas linhas, que eu reproduzo aqui sem o nome do autor, atendendo a pedidos. O que ele disse me emocionou em especial e chamou minha atenção. Para quem acha que o país foi totalmente destruído, como a mídia tendenciosa ensina, vale ler e reler. O autor vive em Beirute e dá uma noção do pós-guerra. Vai na íntegra, exatamente como veio: Obrigado pela mensagem. Passamos por mais uma guerra e esperamos que não retorne, pois a situação ainda é delicada. Quanto a nós, residimos em bairro que não era zona de combate, foi especificamente bairros xiítas, escutávamos todos os aviões e bombardeios, mas estamos bem, onde não havia bombardeio a vida está correndo normal, este é o Líbano. Com o cessar-fogo dia 13 passado logo em seguida começaram a limpar as ruas e o país está voltando ao normal, nova reconstrução. Novamente obrigado e um grande abraço.

[*] Texto exclusivo para assinantes UOL. Se você quer ler o texto mas não pôde acessar, deixe um comentário com o seu email e eu envio assim que possível.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Quem ganhou a guerra?

A pergunta do momento é quem, afinal, ganhou a guerra. Não tanto porque isso realmente importa, mas porque ficou a sensação de que o conflito entre Israel e Hizballah terminou sem vencedores. Apesar de os dois lados cantarem vitória, a verdade é que nem os soldados israelenses nem os membros do grupo libanês têm razões suficientes para erguer o punho fechado.

Pior: os israelenses que voltaram do campo de batalha no sul do Líbano estão contando por aqui, de volta em casa para uma folga que não deve durar muito tempo, coisas que a mídia israelense não cobriu, que os jornalistas estrangeiros não disseram, algumas a que sequer os blogs tiveram acesso - como por exemplo o fato de que muitas vezes eles avançavam sem ter um objetivo definido, sem saber o que deveriam fazer exatamente.

Existe em Israel agora uma sensação muito forte de que o país saiu perdedor. Não apenas pelo número altíssimo de soldados mortos em um conflito relativamente curto contra um grupo terrorista (e não um Exército constituído, como aconteceu em outras guerras), mas também pelo fato de que sabe-se muito bem que o objetivo da guerra - acabar com o Hizballah - não foi nem de longe atingido.

Não acho que isso, sozinho, seja sinal de que o Hizballah tenha saído vencedor, por outro lado. Não é. Mas se os fundamentalistas do Nasrallah lançaram 4 mil mísseis contra Israel, e a Inteligência daqui falava em um arsenal de 12 mil mísseis antes do conflito, faltam ainda 8 mil, apontados para cá. Mais: o Hizballah insiste que não vai se desarmar, uma das condições da resolução 1701, a mesma que impôs o cessar-fogo.

E aí, como é que fica? Politicamente, existe o entendimento de que se Israel não voltar à guerra, o governo de Olmert pode cair. E se cair, cai com razão, porque arrastou o país para um conflito que teve mais contras do que prós. Matou e feriu muitos civis, expôs soldados a perigos excessivos e não conseguiu abalar o Hizballah a ponto de diminuir a ameaça que representa.

Estrategicamente, por outro lado, se Israel voltar para o combate as coisas terão que ser diferentes - ouvi essa semana de um oficial da Inteligência que essa guerra foi, sozinha, diferente de todas as outras. Os ataques deverão ser intensos contra o Hizballah, mas devem evitar atingir civis - de fato os grandes perdedores dessa guerra foram o Líbano e o povo libanês.

Israel precisa aprender como lidar com um grupo que se esconde entre civis para atacar os civis do outro lado. É o desafio que se impôs ao "quarto exército mais poderoso do mundo" com essa guerra. E não é o único. Quem ganhou a guerra, afinal? Eu conto quando a guerra acabar, de fato.

[ÁUDIO] Falei sobre esse mesmo assunto na RFI, aqui. Todas as entradas aqui.
[OPINIÃO]
Uma "vitória" do Hizballah?, de Bernard Haykel, aqui

terça-feira, agosto 15, 2006

Guerra de propaganda

Começou a valer o cessar-fogo da ONU. Nas palavras da imprensa local, estamos vivendo uma "tranqüilidade tensa". Aqui em Jerusalém, da mesma forma como não se sentia a guerra, não se sente o fim das hostilidades, a não ser nos comentários comuns em conversas com taxistas e na rua.

Uma coisa nesse momento me chama especialmente a atenção - a nova guerra de propaganda que está acontecendo desde a assinatura do cessar-fogo. Israel e o Hizballah abaixaram as armas mas não abriram mão das estratégias de propaganda.

Já cansamos de ver imagens de folhetos caindo sobre o Líbano, nos quais Israel culpa o Hizballah pelos danos causados às cidades, agora que a população está voltando ao sul do país. Nos folhetos aparece o líder do Hizballah, Hassan Nasrallah, e inscrições em árabe explicando que ele, com o seqüestro dos soldados, provocou a guerra.

Por outro lado, o Hizballah faz a sua propaganda, cantando vitória em uma guerra que não terminou com vitoriosos, mas foi interrompida por um cessar-fogo imposto pelas Nações Unidas com a resolução 1701. As ruas de Beirute estão cheias de pessoas distribuindo chá e doces em sinal de vitória do Hizballah.

Agora é assim. Os libaneses voltam para o sul, os israelenses voltam para o norte. As populações saem dos abrigos e a rotina deve lentamente voltar ao normal. Fica apenas a pergunta: que tipo de cessar-fogo é esse e quanto tempo ele vai durar?

sábado, agosto 12, 2006

Uma resolução, enfim

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução, de número 1701, com base no que foi rabiscado há uma semana. O texto pede o fim dos confrontos entre Israel e o Hizballah e a retirada das tropas israelenses do Líbano. Estou acompanhando as reações e depois escrevo por aqui. Mas tanto o premiê libanês, Fuad Siniora, como o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, já anunciaram que vão adotar os termos aprovados pelas Nações Unidas. Na teoria, assinaturas. Na prática, é esperar para ver.

[MAIS] Leia os principais pontos e a íntegra da resolução 1701 da ONU.
[ANALISANDO] Textos que valem a leitura, sobre a resolução: Not so bad in theory. An unmitigated disaster, UN resolution meets gov't goals, How to cease the fire.
[CONTAGEM] E hoje a guerra entre o Hizballah e Israel completa um mês.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Uma análise

É o velho papo: se um judeu fala por Israel, é tendencioso; se um árabe critica Israel, é óbvio. Por isso, vale ler a coluna de Ali Kamel, de origem árabe. Ele não fala por Israel e nem critica o Estado judeu. Faz apenas uma análise limpa e embasada sobre o ciclo dos acontecimentos no Oriente Médio. Infelizmente, parece estar certo até nas previsões.

domingo, agosto 06, 2006

Rabiscando um cessar-fogo

Ontem, sábado, a ONU desenhou uma proposta de cessar-fogo para o conflito entre Israel e o Hizballah, que já se arrasta por quase um mês. Estados Unidos e França chegaram a um acordo sobre a proposta. Mas hoje de manhã, ao ler a reação dos dois lados, não pude deixar de pensar numa frase do Abba Eban que ficou famosa.

O embaixador israelense nos Estados Unidos e na ONU dizia que os árabes nunca perdem uma oportunidade de perder uma oportunidade. Fato. Em 1947, quando a ONU dividiu a Palestina britânica em dois, os judeus aceitaram e os árabes não. Conclusão: 58 anos depois, existe Israel, mas ainda não existe Palestina.

Com o cessar-fogo rabiscado ontem, idem. Os líderes do Hizballah e da Liga Árabe, em contraste ao governo israelense, recusaram as condições do documento. Pudera. A proposta da ONU prevê que as tropas de Israel continuem no sul do Líbano até a chegada das forças internacionais.

De novo, os esforços diplomáticos podem descer pelo ralo.

Falei a respeito do assunto na RFI ontem. Eu dizia que propostas de cessar-fogo encontram forte resistência em Israel. E continuei: "existe por aqui o entendimento de que um cessar-fogo imediato e imposto pela comunidade internacional é um mau cessar-fogo. A região precisa de um acordo abrangente e durável, que consiga afastar a ameaça do Hizballah da fronteira entre Israel e o Líbano e ao mesmo tempo pressionar a Síria e o Irã a não rearmar o grupo libanês. Existe a necessidade de colocar o governo de Beirute de volta ao controle do Líbano".

[ALMA DO NEGÓCIO] E uma guerra não se faz apenas com mísseis. Imagens e slogans são parte da realidade de guerra. O Bean e a Daniela já contaram, mas eu faço questão de relembrar aqui que já virou "moda" colar nos vidros dos carros adesivos com inscrições otimistas e de incentivo. O que eu vejo mais freqüentemente, feita pelo banco Leumi ("nacional") diz "Nós venceremos", esse. Em diversas cidades outdoors como esses estampam os dizeres "Israel é forte". Tudo para não deixar o ânimo da população cair - outra coisa sobre a qual falei ontem na RFI. A população está impaciente e querendo uma resolução para o conflito.
[DEPOIMENTO] A Nathy contou um pouco do clima lá no norte. A família adotiva dela recebeu alguns parentes que moram em Carmiel e estavam em abrigos. E ela ouviu deles o relato do dia a dia de medo e tensão na guerra, aqui.
[INDO LONGE] Vale lembrar que nos últimos dias mísseis do Hizballah chegaram até Hedera, o ponto mais ao sul já atingido pelo grupo libanês. E vale dizer que a Hedera fica a poucos quilômetros do norte de Netania, cidade onde moram meu pai e meu irmão. E o Nasrallah já prometeu atingir Tel Aviv, que fica bem mais ao sul... E, bom, nem a cidade onde moram minha mãe e minha irmã, Campinas, está de fora dessa briga - ontem a sinagoga de lá foi atacada.
[ENQUANTO ISSO] Ontem à noite mais um atentado terrorista foi frustrado depois que uma mulher foi presa com explosivos. E o Irã anunciou que vai expandir as atividades nucleares...

terça-feira, agosto 01, 2006

"Fazendo a coisa certa"

"Se você pudesse, estaria sentado aqui ao meu lado agora,
porque você sabe que estamos fazendo a coisa certa"
Dan Gillerman, embaixador de Israel na ONU


As pessoas me perguntam, afinal, qual é que é a dessa guerra. Difícil mesmo entender que uma guerra pode ter razões que, só pelo conceito, se presumem racionais. Mas a ameaça que o Hizballah representa para Israel (e a ameaça que o terrorismo representa para o mundo) precisa ser combatida. Não defendo aqui nenhuma ação específica de Israel e definitivamente não escolhi hoje, um dia depois do infeliz ataque à Qana, para escrever sobre isso.

Acontece que só hoje, e só por acaso, achei o vídeo abaixo. Na minha opinião, o discurso do embaixador israelense na ONU logo nos primeiros dias da crise é o mais significativo de todo esse enrolo - por isso, e só por isso, reproduzo aqui. Acho que o Gillerman, em uma mensagem para o embaixador libanês, resume bem a razão dessa guerra. E ele tem razão quando diz a frase que abre o post.

Hoje, quando o premiê Olmert disse que não vai haver cessar-fogo agora, as palavras do Gillerman ressoam e explicam a posição de Israel. Olmert, in a speech in Tel Aviv (...) broadcast both on radio and television, said there were "still many days of fighting ahead of us. Missiles and rockets will continue to land, and hours of fear, uncertainty and yes - even pain, tears and blood - are still expected."

Tem muito pra ser dito, mas eu prefiro deixar que fale o Gillerman.



[ONU] Se o vídeo não funcionar, a íntegra do discurso de Gilerman está aqui.

domingo, julho 30, 2006

Tzav Shmone

Mostrou agora no "Jornal Nacional" de Israel, que, como no Brasil, vai ao ar às 8 da noite: soldados que receberam durante o fim de semana o chamado "tzav shmone", carta que comunica aos reservistas que devem se alistar e se alinhar às tropas na fronteira.

A situação da guerra com o Líbano, que hoje teve um capítulo sério e comprometedor para Israel, com a morte de quase 60 civis na vila libanesa de Qana, está exigindo o recrutamento de novos soldados, mais e mais.

O que chamou a atenção na matéria do canal 10 foi o espírito de família que existe em Israel. Não quero soar piegas, mesmo. Mas aqui é muito forte esse negócio de que o soldado é o pai, o irmão, o vizinho de cada cidadão. Na matéria apareceu uma família inteira (pai e dois filhos) que receberam o tzav shmone e, de manhã, colocavam a farda para atender o chamado.

A sensação que ficou é essa. A de que as pessoas são chamadas para o front e quem não vai fica com os olhos e os ouvidos grudados nas notícias...

quarta-feira, julho 26, 2006

Num piscar de olhos

Cedo hoje a palavra ao Wolf Blitzer, da CNN, que neste texto descreve bem o clima por aqui. Ele conta que na última vez que esteve em Israel, em janeiro, a história do momento era a saúde do então premiê Sharon e que havia sim notícias de conflitos com os palestinos, mas não existia temor de ataques vindos do norte. Num piscar de olhos, quase, tudo mudou e ele conta que nas últimas duas semanas a situação está "claramente alterada". Como eu contei esses dias, a população em Jerusalém, onde também o Blitzer está, ainda não sente os efeitos do que rola no norte. Mas um gráfico muito bem feito do New York Times, com os ataques dia após dia no Líbano e em Israel, explica o alcance dos mísseis do Hizballah - e Jerusalém está sim na área que pode ser atingida. No texto o Blitzer ainda lembra o ataque à pizzaria Sbarro em uma das mais movimentadas esquinas de Jerusalém, que fica no roteiro entre o hotel dele e a sede da CNN. A conclusão do texto é incisiva: fala de como a população das cidades fronteiriças está fugindo para o sul - o Ha'aretz reporta que Eilat, a cidade mais ao sul em Israel, recebeu 120 mil pessoas nas últimas semanas. Eilat tem 50 mil habitantes. Palavras do Blitzer: "são os sinais do tempo em Israel".

[ÔNIBUS] Inauguro com esta nota coluna que deverá ser semanal no BlueBus, conceituado site brasileiro sobre mídia. Escreverei sobre mídia e assuntos correlatos daqui do Oriente Médio. Todas as minhas no BB estarão aqui. Sugestões para a coluna podem ser enviadas para .

sábado, julho 22, 2006

Cobertura de guerra

Bastou acontecer o seqüestro de dois soldados e Israel reagir: jornalistas de todo o mundo estão se amontoando na região para cobrir os eventos com a exclusividade que puderem, direto do front. É claro que o assunto é importante e é mais claro que vende.

Só a CNN, que na minha opinião está liderando a cobertura, tem um total de dezessete correspondentes espalhados por Israel, Líbano, Síria e Chipre.

Tenho acompanhado especialmente a CNN desde o início do conflito. Eles não demoraram em mandar muita gente boa para cá, além dos dois correspondentes que já estavam fixos. Até a correspondente Christiane Amanpour, que andava sumida, veio.

Cobertura de guerra tem um quê especial. Nem tive tão perto assim de tropas, embora tenha circulado pela região norte logo nos primeiros dias dos conflitos e conversado com muitos moradores. Mesmo assim, sendo jornalista, sinto que é importante estar aqui - é a velha máxima: estar no lugar certo, na hora certa.

O momento é delicado e o conflito entre Israel e o Hizballah pode durar semanas. Por isso, cancelei a viagem que estava marcada para terça-feira, para o Brasil. Fico pelo menos até o final de agosto e continuo correspondendo para a RFI, de Paris, e colaborando com a Eldorado AM, em São Paulo.

Acho importante explicar que o conflito está bastante longe de Jerusalém. Como comentei no AoE, nem se sente por aqui os efeitos do que está rolando no norte. Isso chega a incomodar - a população parece ainda apática e desinteressada embora muita gente esteja morrendo alguns quilômetros mais ao norte.

Outra faceta interessante da cobertura sobre o conflito são os blogs. Embora não tenham ainda a credibilidade dos grandes veículos, os blogs dão uma visão diferente e mais pessoal do que está acontecendo por aqui. Gosto de ler alguns blogs, feitos por internautas dos dois lados, para ter uma noção do que vai pela cabeça das pessoas.

[VEÍCULOS] Para acompanhar a cobertura do conflito, clique: CNN, YnetNews, Ha'aretz, Jerusalem Post, AlJazeera (inglês), Folha de S. Paulo (português) [outros? mande pra ]
[BLOGS] Para ler os depoimentos de pessoas vivendo e vendo o conflito de perto, clique: Blog do Bean, Terra Estranha (português, de Israel), Israeli Bunker (inglês, de Israel), Entre tapas e copas (português, do Líbano), The wizard of Beirut (inglês, do Líbano) [outros? mande pra ]
[AINDA A MÍDIA] Depois que Israel atacou antenas do canal de televisão Al-Manar, no Líbano, e a Federação Internacional de Jornalistas, à qual sou filiado, emitiu um comunicado de condenação, jornalistas israelenses retiraram a filiação da FIJ. Aqui. A Al-Manar é a televisão do Hizballah.

segunda-feira, julho 17, 2006

Palavras de Bush

(em conversa informal com o Blair)

"See, the irony is what they really need to do is to get Syria to get Hizbullah to stop doing this shit and it's over".

E eu concordo.

A caminho de Jerusalém (*)

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sexta-feira, julho 14, 2006

Disparos intensos (*)

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No extremo norte (*)

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Três mísseis em Naharia (*)

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[IMAGENS] Fotos dos danos causados pelo Katyusha que caiu em Naharia, aqui.

Sinal de fumaça

A preocupação de quem apenas acompanha as notícias pela mídia é natural. Algumas pessoas me ligaram, muitas escreveram emails e a pergunta se repetiu: "como está a situação na real?" A verdade é que aqui em Jerusalém não sentimos diretamentos os efeitos dos conflitos no sul ou no norte.

Apesar de o país ser pequeno como um ovo, a capital fica distante o bastante das duas frentes de batalha para escapar de ataques e da sensação real de guerra que está assolando o país. São 60 quilômetros até a Faixa de Gaza e 200 até o norte.

Mas não tem como não sentir isso, de uma forma ou de outra. Nos próximos dias o irmão de um grande amigo meu vai ser deslocado para o norte. Ele está em Israel há dois anos, como eu, e está servindo no Exército. Milhares de reservistas foram chamados para ficar de prontidão.

Assino um serviço de notícias em tempo real pelo celular há cerca de 10 meses. Desde então, nunca vi em um só dia tantas mensagens. Recebi quase cem, com informações sobre novos ataques, dos dois lados. Assim soube da morte de uma mulher em Tzfat, outra em Naharia, dos ataques contra o aeroporto em Beirute etc etc etc.

Falei com uma moradora de Naharia, cidade fronteiriça, onde estive duas vezes - uma há quatro anos e outra no verão passado. A cidade é tranqüila e os edifícios são equipados com quartos de segurança protegidos por camadas de concreto, portas isoladas, janelas blindadas e guarnições estanques. Lá, ontem, se ouvia o disparo dos Katyusha. A polícia pediu para as pessoas se protegerem.

Pela primeira vez a cidade de Haifa, a terceira maior do país, foi atingida pelos mísseis disparados pelo Hizballah. Tentei mas não consegui falar com pessoas que moram lá. Amanhã tento de novo e deixo as sensações aqui.

[OUVINDO] Falei aqui no blog diretamente do norte de Israel. Para ouvir: Três mísseis em Naharya, No extremo norte, Disparos intensos, Narguila na guerra, Novos disparos.

quinta-feira, julho 13, 2006

Uma nova frente de batalha

O caldeirão do Oriente Médio entornou de vez. Nas últimas três semanas, quem acompanha as notícias pôde ver imagens estranhamente constrastantes. No dia 22 de junho o primeiro-ministro Ehud Olmert, de Israel, e o presidente Mahmud Abbas, da Autoridade Palestina, se encontraram na Jordânia e trocaram beijos e abraços.

As imagens daquele encontro informal, promovido pelo rei jordaniano em Petra, no sul do país, deixaram a sensação de que um acordo poderia brotar entre Israel e os palestinos. Aquele foi o primeiro encontro de alto nível em meses, e representou uma volta nos contatos entre os dois lados - afastados em um conflito de tensões.

Alguns dias depois, no domingo 25 de junho, a reviravolta. Em uma operação maluca, terroristas palestinos do Hamas se arrastaram por um túnel de um quilômetro de extensão entre a Faixa de Gaza e uma base do Exército no sul do país. O saldo: dois soldados mortos, dois palestinos mortos, um israelense seqüestrado.

Depois, a reação de Israel: operação "Chuva de Verão". Ataques ao longo da Faixa de Gaza para tentar recuperar o soldado, mortes de civis, bombardeios etc etc etc. A bola de neve rola morro abaixo e ninguém mais consegue pará-la. Agora, uma nova frente de batalha - seqüestro de mais dois soldados, pelo Hizballah, na fronteira norte.

Isso aconteceu ontem. Hoje o país acordou em meio a uma nova onda de ataques, lá no norte. Uma mulher de quarenta anos foi morta em Naharia, na fronteira norte, atingida por um dos 70 mísseis Katiusha disparados do Líbano contra cidades israelenses. Como resultado, mais ataques de Israel contra o Líbano, agora: operação "Por Merecimento".

"Parece véspera de Yom Kipur"
Falei hoje de manhã, para a minha entrada na RFI, com uma moradora de Naharia. As palavras dela foram contundentes: "a cidade está vazia, não se vê ninguém nas ruas, parece que estamos em véspera de Yom Kipur". Ela me disse que já na noite de ontem a polícia ordenou à população entrar nos abrigos anti-aéreos e quartos de segurança.

E rola a bola de neve...

[FOTO] Soldados israelenses se posicionam na fronteira com o Líbano (AP/ JPost)
[ÁUDIO] Falei a respeito da nova escalada da violência hoje na RFI, aqui

terça-feira, junho 27, 2006

"Seqüestraram um soldado"

O seqüestro de um soldado israelense no último domingo trouxe a Israel a lembrança amarga do incidente que ocorreu há vinte anos e ainda não tem nenhuma resolução. O capitão israelense Ron Arad (na foto), que foi seqüestrado no Líbano em 1986, hoje dá nome a ruas, a auditórios, a pavilhões em universidades em Israel e no mundo judaico...

Já se vão duas décadas e até o momento nenhuma notícia concreta sobre o paradeiro daquele jovem que deixou mulher e filha. Nem se está morto, nem onde está sendo mantido, se vivo. Uma recompensa de 10 milhões de dólares foi oferecida por informações que levem a ele. Nada.

Vinte anos depois, as manchetes estamparam nesta semana que um soldado foi seqüestrado. Outro, mais um, o primeiro em 12 anos. Ainda com o gosto amargo pela abdução de Arad, Israel resolveu atacar a Faixa de Gaza. Voltamos à bola de neve da violência no Oriente Médio.

A escalada de violência acontece em um momento que pode ser importante para a região: grupos representados de um lado pelo Hamas e de outro pela Fatah assinaram um documento que prevê o estabelecimento de um Estado palestino ao lado de Israel.

Embora seja visto com muito ceticismo em Israel, o acordo pode significar o primeiro reconhecimento oficial do Hamas ao direito de existência do Estado judeu.

Mas, diante de uma situação como essa, política e acordos não importam tanto. Israel prende a respiração e aguarda notícias sobre o soldado seqüestrado, um menino de 19 anos que está nas mãos de terroristas. O país, que ainda se lembra do amargo de Ron Arad, espera não sentir esse gosto mais uma vez.

[PARA OUVIR] Falei a respeito do seqüestro do soldado e das reações na Radio France Internationale no dia 27, ontem e hoje. Outras entradas minhas na RFI aqui.
[BASTIDORES] No Blog do Bean tem uns comentários de bastidores sobre um dos dias em que transmiti para a RFI. Quando eu estive no Brasil, em janeiro, ele - que é meu flatmate - esteve no meu lugar como correspondente para a rádio francesa.
[MAIS] Canal especial sobre o seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit no YNet News, aqui e sobre os ataques à Faixa de Gaza, em resposta, no Ha'aretz , aqui.

sexta-feira, junho 23, 2006

Fundamentalismo preconceituoso

If gays will dare approach Temple Mount
during parade – they will do so over our dead bodies

Ibrahim Sarsur, deputado árabe

'The feeling is that Jews disgrace Jerusalem's
holiness with the government's encouragement
'
rabino israelense


Está na capa do YNet News de hoje: judeus e árabes juntos contra gays, aqui. Confesso que senti uma mistura de alívio (judeus e árabes unidos por uma causa?) e desprezo. De novo, o fundamentalismo dá as caras, dessa vez na faceta preconceituosa contra os homossexuais.

Para quem não sabe, estão agitando para daqui a dois meses uma parada gay em Jerusalém, que certamente vai ser bem menor que a que rolou recentemente em São Paulo. Os ortodoxos - dos dois lados, como mostra a matéria do YNet News - são contra.

Não é novidade. No ano passado a parada em Jerusalém, a primeira realizada na capital, acabou mal. Um judeu ortodoxo esfaqueou um dos 4 mil participantes da marcha colorida, que parou o trânsito e estampou manchetes.

A coisa é bem diferente do que rola em Tel Aviv, onde a sociedade é bem mais liberal. Parecem dois mundos, separados por apenas 45 minutos e por pelo menos duas linhas de ônibus freqüentes.

Mas o que me deu mais bronca foi outra declaração do mesmo deputado árabe que eu coloquei lá no alto. Para ele, o "ataque" da parada gay contra a "identidade dos jovens árabes da cidade" é "mais feroz do que o ataque sionista para judaizar Jerusalém".

Tomara todos os nossos problemas fossem a "ameaça gay".

Estou indo para Tel Aviv passar o dia.

[NO GRAMADO] E por falar em polêmica e Israel, mais uma, agora com a Copa: um jogador do time de Gana (que vai enfrentar o Brasil na terça) mostrou em um jogo, depois dos dois gols que marcou, a bandeira israelense. É que ele joga aqui, quis fazer uma espécie de agradecimento e homenagem. Se deu mal. Teve que pedir desculpas oficialmente por poder ter ofendido alguém. Absurdo... O Bean conta mais no blog dele, aqui.

quinta-feira, junho 15, 2006

Amigo é pra essas coisas...

Parece piada em se tratando do país no qual mais pessoas morreram na história recente vítimas de terror. Mas é verdade: morre-se mais em Israel em acidentes de trânsito do que em atentados terroristas.

Todo dia há notícias de acidentes, com imagens e números chocantes... Da mesma forma que falam da previsão do tempo, falam em quantos se arrebentaram nas estradas.

E não acontece só no noticiário. No feriado de independência eu estava com o carro do meu pai e fui para uma rave em Tel Aviv (sim, eu numa rave). Na volta, dirigindo pela estrada em direção a Netania, onde ele mora, estava meio aflito porque estava bem cansado, pescando no volante, e de repente vi dois carros arrebentados no caminho.

É... Os israelenses têm uma capacidade incrível de detonar os carros e provocar acidentes hollywoodianos, mesmo dirigindo carros modernos em estradas-tapete, perfeitas, que são recapeadas e repintadas a cada poucos meses. Fora que não são muito mestres em cuidar dos carros, que vivem sujos, riscados. Vai entender...

Bom, o resultado de estatísticas tão tristes não poderia ser outro: campanhas e mais campanhas pela conscientização ao dirigir. Uma delas, que está no ar na rádio Galgalatz, provavelmente uma das mais ouvidas daqui, fala do famoso "amigo da vez", o escolhido da noite para dirigir e não beber, e trazer os amigos de volta para casa seguros.

O conceito, também usado no Brasil, é o mote da campanha Im shotim lo nohagim, bishvil ze iesh chaverim. A frase tem sentido duplo em hebraico. A palavra shotim, dependendo de como é grafada, significa "bebem" ou "idiotas". Im idem - pode ser "se", pode ser "com". Ou seja: "com idiotas não se anda", "se beber não se viaja" (também nohagim tem sentido que cabe nas duas versões).

domingo, junho 11, 2006

O caro pacote da Copa

A bola já está rolando nos gramados da Alemanha e por aqui em Israel o que rola é uma polêmica: quem pode ver os jogos. Tudo isso porque uma TV comprou os direitos e fez um pacote, que custa mais de 100 dólares, para transmitir os jogos. Significa que além da assinatura dos serviços de cabo, os israelenses teriam que pagar um adicional.

Se fosse no Brasil, isso seria razão suficiente para um quebra-quebra, uma revolução civil! Mas como Israel não é, nem de longe, o país do futebol, apesar de ter estado bem perto da classificação e de poder participar pela segunda vez de um "mundial", o máximo que rolou aqui foi um boicote e uma petição. O resultado: "apenas" 38 mil pessoas assinaram o serviço.

A partida inicial, entre os alemães e a Costa Rica, rolou num canal aberto. A segunda, na qual o Equador lavou a Polônia, diminuindo minhas chances no bolão do qual estou participando, só viu ao vivo quem pagou os 100 dólares! Eu vi porque uns amigos compraram o caro pacote da Copa... Na terça-feira, estréia do Brasil, as TVs vão transmitir o jogo, contra a Croácia. Mas não vou estar diante da TV - vai rolar festinha brasileira num bar aqui, com direito a telão e cerveja!

E não quero nem saber. Adotei a campanha do Batendo Bola, e para mim, dia de jogo do Brasil é feriado, mesmo em Israel! Vou sair pro bar enrolado na minha bandeira gigante, com camisa canarinho... Enfim, o espírito é o do vídeo abaixo!



Enfim, minha torcida é mesmo pela Costa do Marfim!

[MAIS]
Especial BBC Copa do Mundo, em português.

quarta-feira, junho 07, 2006

Uma dura entrevista

Não gosto de postar aqui duas vezes tão próximas, mas me vi na quase obrigação de fazer isso depois de ler a entrevista publicada pela Der Spiegel, da Alemanha, com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (na foto ele aparece em discurso na Assembléia Geral da ONU, em setembro).
Enquanto a maioria da mídia parece ter medo de fazer as perguntas certas e de colocar ditadores contra a parede, a revista alemã foi a Teerã e fez isso. A entrevista, que virou um bate-papo duro com Ahmadinejad, é excelente. O presidente do Irã tenta virar a mesa em diversos momentos fazendo perguntas retóricas aos repórteres, que não deixam barato e rebatem à altura.

SPIEGEL: Mr. President, we're talking about the Holocaust because we want to talk about the possible nuclear armament of Iran -- which is why the West sees you as a threat.

Ahmadinejad
: Some groups in the West enjoy calling things or people a threat. Of course you're free to make your own judgment.

SPIEGEL
: The key question is: Do you want nuclear weapons for your country?

Ahmadinejad
: Allow me to encourage a discussion on the following question: How long do you think the world can be governed by the rhetoric of a handful of Western powers? Whenever they hold something against someone, they start spreading propaganda and lies, defamation and blackmail. How much longer can that go on?

A entrevista tem um valor muito grande, por ter sido feita por uma revista alemã, país que vai sediar a Copa 2006 (que começa sexta-feira, já). Vale lembrar que o Irã quase foi riscado dos jogos por conta das declarações do presidente sobre o Holocausto e sobre Israel.

A entrevista aparece poucos meses depois de o presidente iraniano ter colocado em dúvida o Holocausto. Em diversos pontos da entrevista, em inglês, Ahmadinejad tenta argumentar que se a Alemanha é responsável - legal ou moralmente - pelo Holocausto, o Estado de Israel deveria ser instalado na Europa.

Enfim, um must-read.

[MAIS]
Na mesma Der Spiegel, especial sobre Oriente Médio, com notícias e análises sobre a região em inglês.

terça-feira, junho 06, 2006

A seguir escenas del próximo capítulo...

Não é à toa que em Israel se falam tantos idiomas, e tão bem, e mesmo por gente que não tem pais ou avós de determinado país. Outro dia encontrei uma russa que trabalha em um fast food de comida chinesa e fala português bem demais para alguém que não tem pais brasileiros. Ela não tem. Tem é o hábito de ver novelas brasileiras, o que a ajudou a aprender o idioma. Bom, é o que ela diz...

Espanhol, muito mais comum nos canais Viva ou Viva Platina, onde a maioria das novelas é argentina ou mexicana mesmo, é fácil de achar pelas ruas, não apenas falantes, mas entendedores, e bom entendedores - afinal, há muitos olim chadashim de países de fala hispana. Fica até arriscado falar em espanhol no ônibus se você não quiser que ninguém te entenda além do seu interlocutor. E há sempre a chance de ouvir a pergunta:
Eize safá atem medabrim? Que língua vocês estão falando?
É... Israel não é o país das dublagens, definitivamente. Qualquer programa em qualquer idioma e em qualquer canal de televisão (menos os russos...) é legendado - filmes, novelas, documentários, programas eróticos... Mantém-se o original com suas qualidades e defeitos. E o povo aprende outros idiomas.

Isso, claro, sem contar que é um ótimo exercício para quem está aprendendo o hebraico. Em casa, por exemplo, é programa quase religioso sentar diante da televisão, todas as tardes, às 18h47, e ver Celebridade. Não apenas porque Celebridade é a única novela que presta, e nem tanto porque é oportunidade de escutar português e ver paisagens maravilhosas do Rio...

Mas muito porque podemos ler as legendas - e em geral morrer de dar risada com as traduções... Duro mesmo é ver no final de cada parte as "escenas del próximo capítulo"...

Do Blog do Bean, imagens da novela captadas na televisão, aqui.

quinta-feira, junho 01, 2006

Horários de shabat

Mais uma da série "coisas que só em Israel", essa foto. Acho que é algo exclusivo de Jerusalém, não me lembro de ter visto em nenhuma outra cidade por aqui (vale lembrar que a capital tem muitos judeus ortodoxos, o que aliás faz da cidade uma das mais pobres do país na estatística, já que eles não trabalham e na conta, a renda per capita é menor).

O negócio é o seguinte: alguém afixa esses avisos nas paradas de ônibus, semana após semana, informando o horário de começo (para o acendimento das velas) e de fim do shabat, o trecho semanal da Torá (parashat hashavua) e outras informações úteis para quem é ortodoxo e para quem não é (afinal, os serviços, como os ônibus, páram na tarde da sexta-feira e voltam só no sábado à noite - outra coisa que só em Israel, mesmo).

Hoje não é sexta-feira, mas é erev chag, o que significa véspera de feriado (amanhã é Shavuot). Na prática, é como se fosse manhã de sexta-feira: o shuk (mercado livre) começa a funcionar mais cedo, as pessoas caminham num ritmo mais acelerado porque o dia é mais curto, os ônibus páram de circular ao anoitecer, barraquinhas são montadas pelas ruas para vender flores etc. E, ah, eu não trabalho à noite!

Algumas palavras sobre Shavuot: é uma das festas mais importante do calendário judaico, ao lado de Pessach e de Sucot. Nesse dia, que vem "uma semana de semanas" (49 dias) depois de Pessach, se celebra a entrega das tábuas da lei, a Torá, ao povo judeu no monte Sinai, e também o transporte ao Templo dos primeiros frutos da colheita de cereais.

[Clique na foto para ampliar e poder ler o que aparece no papel!]

sexta-feira, maio 26, 2006

Capital eterna e dividida

Jerusalém. Capital eterna e indivisível do Estado de Israel. Isso mesmo? Deveria ser, de acordo com a tradição popular judaica. A frase é tão consagrada que o título do post parece heresia.
Mas não é. Quem conhece bem esta cidade, sabe que ela não só é divisível como já foi dividida, como as cidades brasileiras nas quais vivem os poucos, mas estimados, leitores deste blog!
Ok, hoje comemoramos por aqui 39 anos desde a reunificação da cidade, durante a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967 (a data se refere ao calendário judaico). No caminho para o trabalho vi fogos de artifício colorindo a muralha da Cidade Velha, lindo! Mas o fato é que Jerusalém é cidade dividida.

Como nas cidades brasileiras, aqui há lugares onde não se vai, apesar da sensação generalizada de segurança. Não sei vai por ser judeu ou por ser muçulmano. Não se vai por usar kipá ou kfia. Não se vai por medo, o simples medo de não pertencer, de destoar, de ser diferente em uma terra de diferenças.

E Jerusalém não é só aquela cujo nome aparece nos livros sagrados das religiões que insistem em ser parecidas no monoteísmo delas, apesar das diferenças. A cidade de ouro, cujas muralhas brilham nesta época do ano com o sol, tem divisões até no transporte coletivo. Ironia? No lugar em que estatisticamente mais terrorismo acontece no mundo, árabes e judeus têm linhas de ônibus independentes.

O traçado da Cerca de Segurança que rasga Jerusalém divide a cidade dela mesma. Quem pára perto da Cinemateca antes do anoitecer consegue notar não muito longe dali, depois do vale, o muro de 7 metros de altura que divide o cá do lá. Um risco tortuoso e cinza na cidade sagrada para tanta gente. Jerusalém é também a cidade na qual em alguns ônibus os homens se sentam à frente e as mulheres na parte do fundo.

A Cidade Velha, ela mesma, é território dividido, em quatro. Divisões que se entrelaçam. Os bairros são testemunhas de gente que não pertence a eles. Judeus desfilam seus ternos e chapéus pretos nas ruas com nomes árabes ou armênios. Kfias vermelhas ou pretas passeiam por esquinas do bairro judeu. Todos visitam o "quarto" cristão...


Tem uma frase interessante, que eu cito de memória, de um autor de quem não me lembro o nome agora. Jerusalém é um local esquisito: é o único local onde árabes muçulmanos vestindo trajes tradicionais vendem símbolos cristãos a peregrinos do mundo todo em troca de uma nota de dinheiro que estampa a imagem de um rabino... No final das contas a cidade dividida une religiões, une fés, une povos separados pelas diferenças.

Mas a notícia do dia por aqui foi outra, como o Pedro Doria comentou lá no NoMínimo.

[CLICK] As fotos, que não são minhas, apresentam algumas facetas da Jerusalém dividida.
[NOMÍNIMO] Entendi a razão de tantos comentários nesse post - o mesmo Pedro Doria falou do assunto e linkou o 23a idade lá no NoMínimo. Embora não concordemos na polêmica "unificação x tomada", gostei de ver o 23a em um dos sites que leio todos os dias!

quarta-feira, maio 24, 2006

Suco de laranja grátis *

this is an audio post - click to play
Eu sei que a gravação ficou péssima, até achei que não tinha entrado aqui. Mas o que eu conto é que estavam distribuindo suco de laranja (a laranja é uma espécia de símbolo de Israel) pelo dia de Jerusalém na kikar Tzion, um dos lugares mais movimentados de Jerusalém. Contava também que a cidade está ficando de novo cheia de turistas porque o calor está chegando e o período de férias também! Foi isso!

Quer ver o que eu vi? Aqui o sujeito com o microfone, fazendo a barulheira que vocês ouviram. E aqui tem até um ortodoxo na fila para o suco! Tem outra, aqui, do pessoal se esmagando para pegar o suco!

sexta-feira, maio 19, 2006

Confusão na Faixa de Gaza

Rolou tiroteio em Gaza ontem à noite por causa dos conflitos entre a polícia da Fatah, do presidente Abu Mazen, da Autoridade Palestina, e a "Unidade de Apoio", nome das forças de segurança que o Hamas decidiu colocar nas ruas. Falei a respeito na RFI hoje cedo. Contei também que a ministra israelense de Exterior vai se encontrar com o Mazen no domingo, mesmo dia em que o premiê Ehud Olmert viaja para os EUA. Para ouvir, aqui.

[MAIS] Outras entradas minhas na RFI aqui.

segunda-feira, maio 15, 2006

Cheiro de feriado...

Alguns feriados aqui têm um cheiro especial, próprio, característico. É o caso de Yom haAtzmaut, o dia da Independência. Como o país inteiro faz churrascos, embora a maioria das pessoas em geral não se preocupe necessariamente com o significado da data, o cheiro de carne assando na grelha se espalha pelo ar. Meu irmão, que tem quatro anos, semana passada comentou - em hebraico, claro! - quando íamos para o tradicional al ha esh (churrasco) que o cheiro de carne era forte!

Hoje é Lag baOmer, dia de acender fogueiras! E é outro dos feriados com cheiro característico. Abri a janela para ver se estava frio (já, já estou saindo para o trabalho) e senti cheiro de fumaça no ar! Tinha até esquecido que é Lag baOmer...! Em Israel é assim: a lua, os cheiros, a decoração... tudo faz lembrar o que comemoramos naquela data.

E na minha São Paulo, a fumaça vem dos ônibus queimados, não de fogueiras comemorativas. Ainda estou boquiaberto diante da CNN, que passou sem parar as imagens do caos no Brasil (só assim o país pode aparecer por lá, né?!) Mas não pude deixar de reparar na imagem em que aparece, em uma cadeia, a inscrição "Feliz dia das mães" rabiscada em uma parede. Ê, povo.

domingo, maio 14, 2006

Mas não com essa farda...

Agora é oficial: não vou mais servir nas Forças de Defesa de Israel como estava previsto desde 2004, quando eu cheguei. Explico: existe uma lei nova, de acordo com a qual quem tem que servir apenas por 3 meses (é o meu caso, porque tinha 25 anos ao chegar) pode escolher entre pedir a dispensa ou servir por um semestre. Tive que dar uns berros para descobrir isso, mas funcionou.

Minha opção foi a primeira. Assinei no dia 10 de abril um documento pedindo dispensa e explicando que já sou muito velho (27 anos, quando os israelenses entram aos 18!), sou formado e tenho trabalho. São razões suficientes para que a Tzahal - que não tem dinheiro para manter um soldado que não vai fazer nada em três meses - me dispensar.
E foi o que aconteceu. Semana passada um telefonema me acordou no meio da tarde e uma soldada, que deve ter dez anos menos que eu, explicou que o serviço estava cancelado. Prometeram que mandariam uma carta avisando das minhas desobrigações militares, mas até agora não chegou nada. E, para quem não sabe, eu deveria ir para o front hoje, como o Carlinhos e o Fábio!

Pode ser que alguém esteja aí se perguntando o que me levou a pedir a dispensa em vez de servir. Eu mesmo saí do escritório de recrutamento me fazendo essa pergunta para só depois me convencer de que tinha feito a coisa certa. O negócio é que já não tenho mais idade e disposição para "trancar" minha vida durante três meses e brincar de ser soldado.

Além disso, outras duas razões, bem práticas. Uma é que eu passaria a ganhar 5% do que eu ganho hoje trabalhando. Outra que, no final das contas, um orgulho jornalístico e essa coisa de achar que a gente pode ser neutro e objetivo falaram mais alto. Agora, então, é oficial: vou lutar mas não com a farda verde-musgo.

Enfim, como tem gente que não escapou, vamos mandar pizza e hambúrguer para eles!

Este post é dedicado à Dé Blatt, que deu a dica: só mesmo armando barraco e batendo o pé em bom e alto hebraico para ser escutado por aqui. Funcionou, e agora posso lutar com outras fardas e outras armas. Vai também para a minha mãe, não só porque hoje é Dia das Mães, mas porque sei quanto é importante para ela me ver longe de armas.

quarta-feira, maio 10, 2006

O orkut dos kibutzim

Só quem já esteve em um kibutz sabe bem - é uma experiência única. Os seis meses que passei em En Dor, no norte de Israel, perto da pacata cidade de Afula, entre abril e outubro de 2002, meses quentes, foram inesquecíveis.

Imagina só: calor, uma piscina gigante, um trabalho que era mais farra do que trabalho, gente do mundo todo, aulas de hebraico a cada dois dias, e... um país inteiro ali ao lado pra conhecer, pra se aventurar - mesmo no pior ano da intifada. Foi assim. Dá saudade.

E aí uma amiga minha, que aliás aniversariou ontem, me contou de um site que é uma espécie de orkut para quem já viveu em kibutzim. Infelizmente é pouco divulgado (quer dar uma força?) e tem muita gente que nem sabe da existência. Mas quem já passou por algum kibutz - qualquer um dos mais de duzentos, pode se cadastrar lá e tentar, com sorte (porque o site não é popular como o orkut, na verdade), achar outras pessoas daqueles dias inesquecíveis.

O site, Kibbutz Reloaded, foi criado por dois loucos - um inglês e um israelense. O inglês, Victor Kremer, conta no perfil dele lá no site que durante o tempo que passou em dois kibutzim, ambos no Negev, ordenhou 270 mil vacas e fumou 426 maços de Noblesse, um dos cigarros mais baratos daqui! O outro, Uzi Dor, nasceu em um kibutz e diz que só nos pesadelos dele os kibutzim aparecem...!

Enfim, fica a dica. Se você já morou em um kibutz, entra lá. Se conhece alguém que morou em um, conta pra ele.

[MAIS] Quer voluntariar em um kibutz você também? Aqui tem informações, em inglês. E essa agência, no Brasil, faz todo o trabalho por você.

sexta-feira, maio 05, 2006

Ligação direta...

Mais uma foto da série "coisas que só em Israel"! Essa eu tirei no Kotel, o Muro das Lamentações, num dia de semana, em que se pode usar celular (e fotografar!) por lá! Fui depositar um petek (bilhetinho) no Muro - atendendo a pedidos - e o sujeito ao lado estava rezando conectado com o mundo! Vale dizer que Israel é um dos países com maior número de telefones celulares per capita! Tem gente que carrega até três! Não existe viagem de ônibus sem pelo menos uma pessoa falando no celular. Crianças têm um aparelho desde cedo... É sem dúvida o melhor amigo do israelense!

[ORKUT] Na comunidade do blog, outras fotos das esquisitices de Israel!

segunda-feira, maio 01, 2006

Memória, independência, do-contras

Feliz dia do Trabalho. Por aqui, não comemoramos a data (o que significa que sim trabalhamos!) Mas outro feriado se aproxima. Quarta-feira é Yom haAtzmaut, dia da Independência e do aniverário de 58 anos de Israel. O país está pintado de azul e branco, como mostram as fotos que eu tirei em Jerusalém durante a semana passada. Clima de aniversário!

Mesmo assim, o espírito nesse dia do Trabalhador é de tristeza e lembrança dos soldados e civis israelenses mortos em guerras e atentados. Começou o Yom haZikaron, outra data morna, em que ouve-se duas sirenes (na foto, durante a sirene desta noite, os motoristas páram os carros e ficam de pé ao lado, no meio de uma rodovia), realiza-se atos memoriais por todo o país e se percebe um tom de luto que acaba na primeira estrela de amanhã, terça. Depois, shows em diversas cidades para comemorar e espairecer.

Dia da Independência é também dia de estatísticas e de saber quantos são os israelenses. De acordo com a última contagem do Escritório Central de Estatísticas, são sete milhões de cidadãos, dos quais 76 por cento são judeus e 20 por cento, árabes. Significa que há em torno de 5 milhões e trezentos mil judeus vivendo ao lado de 1,4 milhão de árabes. E no ano passado 21 mil novos imigrantes chegaram a Israel.

Claro que também aqui existem os do-contra. À noite, enquanto o país via diante da televisão programas monotemáticos, ortodoxos em Jerusalém insultavam a memória dos soldados mortos. A polícia foi chamada, relatou a manifestação como "muito séria", mas não prendeu ninguém. Dá uma olhada.

É o absurdo da nação... Há quem diga que por culpa de atitudes assim os problemas mais graves de Israel são os internos, e não os que o país tem com os palestinos ou os países árabes. Como o Bean mostrou semana passada, esses ortodoxos penduraram cartazes com dizerem como "Sionistas são cães", "Cuidado! Sionistas mordem" e "A besta sionista não é humana". E são judeus...

[UPDATE] Perguntei a uma amiga minha afinal qual o sentimento dela, como israelense, diante do Yom haAtzmaut. A resposta foi surpreendente. O Yom haZikaron fala a ela muito mais forte e muito mais ao coração do que o dia da Independência. Ela me contou que hoje à noite vai a uma festa em Haifa, onde vive, e que não se pensa na data com o significado que ela tem.

Na verdade, ela me disse que ficou bolada com a minha pergunta (mandei pelo celular uma mensagem questionando qual o sentimento dela nesta data, sendo israelense). Ficou triste por se dar conta de que o real significado acaba esquecido, perdido. E explicou que a sirene de Yom haZikaron a emociona muito.

Não é por menos. Todo israelense conhece alguém que foi morto em algum atentado ou alguma guerra. Mais: todo israelense conhece algum soldado ou já foi um. Resultado: falar de memória aos caídos é muito mais próximo deles do que falar em independência. Yom haAtzmaut é só dia de festa!

Mor, here you have it, in Hebrew!

[OUTRO UPDATE] Só hoje consegui contar minha emoção com a sirene.

Este post, escrito durante uma madrugada de telemarketing e reflexão, vai para os 22.123 civis e soldados israelenses que morreram em guerras e em atentados. É essa multidão que o país pára para homenagear no Yom haZikaron.

Atualizei meu flog com uma foto relacionada ao tema deste post, aqui.