quinta-feira, abril 06, 2006

Toma lá, dá cá (aqui também)

As pessoas têm me perguntado o que eu achei do resultado das votações aqui em Israel, as primeiras das quais participei como eleitor, como eu contei no blog azul. Como política é um jogo de toma lá, dá cá, fica difícil dizer simplesmente se "gostei" ou "não gostei" do resultado.

Confesso que ainda estou sob efeito desagradável da surpresa que foi o Olmert, do Kadima, partido vencedor, com 29 das 120 cadeiras, dar ao Partido Trabalhista a pasta da Defesa, uma das mais importantes em Israel, senão a mais crucial, por motivos óbvio-ululantes. Esperava-se que o Avodá, de esquerda, social, ficasse com Educação ou Economia.

Acredito que antes de dizer o que eu achei do resultado, vale comentar, como eu fiz na RFI, o que achei da campanha e do período pré-urna. Morno. Nunca houve, na curta história do país, tanta ausência no dia de votar - apenas 68,9% dos eleitores compareceram (em 1948 foram 86,9%). São eleições especiais e importantes, contudo.

A campanha, ela mesma, foi sem grandes emoções. Quando eu estava aqui no inverno de 2003, e o país se preparava para eleger o Likud de Sharon, as coisas foram bem diferentes, havia clima de política e de concorrência real no ar. Dessa vez a campanha se resumiu a simples acusações entre os partidos e a adesivos (sempre eles) no mesmo tom.

Então, os resultados. O Kadima ("adiante") venceu com 29 dos 120 mandatos, bem menos do que se acreditava que teria. Mesmo assim, comentaristas por aqui elogiaram o partido, por ter surgido há apenas quatro meses "do nada", e chegar a vitorioso. Discordo: o Kadima surgiu de Sharon, forte desde o berço - e soube sobreviver sem o pai. Foi criado pelo premiê em um golpe de mestre, ao perceber que a população se movia para o centro no mapa político.

A vitória era tão certa que muita gente que ia votar no Kadima desistiu na última hora, escolhendo o Avodá (19/120) só para enfraquecer o Likud (12/120), o que funcionou. A mesma estratégia de daká tishim, (minuto 90, como se diz por aqui) foi adotada pelo Partido dos Aposentados (7/120), a grande revelação das eleições da 17a Knesset.

Os velhinhos entenderam que o eleitorado tinha um sentimento de desconfiança com relação aos políticos. Como as pesquisas indicavam um alto índice de abstenção e de votos em branco, a estratégia deles foi convocar os indecisos a não desperdiçar o direito, e escolher a lista dos pensionistas, ainda que em sinal de protesto. Deu certo.

Enfim... Quando eu estava no Brasil, em fevereiro, participei de um debate sobre as eleições. Uma garota perguntou como o Kadima conseguiria governar, em uma coalizão, estando tão distante dos extremos. Naquela época se acreditava que a vitória do partido de Sharon/ Olmert ia ser com mais vantagem do que foi. O historiador Jairo Gawendo respondeu bem: na base do troca-troca.

Afinal, também aqui vale o toma lá, dá cá. É o que estamos vendo e o que vamos ver nos próximos dias com a formação do governo. Aí, então, poderei dizer se gostei ou não! Enquanto, isso, vale a pena ler o editorial do Ha'aretz desses dias, The people have spoken. E esperar.

Post dedicado às pessoas que, em conversas pelo MSN ou no orkut, perguntaram minha visão sobre os resultados! Deu pra ter uma idéia? E a Marcos Wasserman, por ajudar a esclarecer algumas idéias sobre os velhinhos do Partido dos Aposentados.

Um comentário:

edison_talarcio@thinker.com.br disse...

Achei otimo.Parabéns...
Como sugestão gostaria de ler no futuro um texto seu a respeito de brasilidades em Israel.Pessoas, locais,lazer, comidas,etc.