segunda-feira, agosto 04, 2008

Renovando...

O autor desse blog virou carteiro sem poeta. Já faz tempo. Mas se você está lendo isso, é porque não sabia. Agora já sabe. Corre pra !

domingo, julho 08, 2007

Arquivo morto

Então vamos fazer assim. Vamos assumir que viramos leitores de blogs, não mais autores. Vamos contar pra todo mundo, porque todo mundo já percebeu, mesmo. E vamos confessar que daqui pra frente, ou desde o último post, nada mais vai rolar por aqui. Mas vamos deixar tudo que está, como está, para que leiam os que queiram ler, pra recordar os que queiram recordar... Acabou a paciência, acabou muito da ideologia.

terça-feira, abril 24, 2007

País dos judeus

Ontem passou pela minha cabeça uma coisa interessante. O país dos judeus comemora e relembra, nessa semana, os caídos nas guerras e em atentados e os 59 anos desde a independência. E os habitantes não judeus do país judeu? Acontece que eles não sentem isso de perto, claro. Acabei me tocando disso depois de pedir uma pizza nada kasher - com peperoni, carne moída e queijo - e de bater um papo com um árabe que trabalha comigo. Ele começou a comentar que os árabes também não comem porco, o que eu já sabia, e que tudo que eles compram é kasher, não porque eles seguem as leis dietéticas do judaísmo, mas porque não restam muitas opções - os supermercados do país dos judeus, afinal, são kasher...

E é assim, nesse país dos judeus. Comemora-se uma independência que os árabes chamam de tragédia, mesmo aqueles que não moram nos territórios, mesmo aqueles que trabalham e vivem entre os judeus. Chora-se pela morte de soldados que os árabes não foram, já que eles estão liberados do serviço militar, obrigatório para todo judeu e druso que completa dezoito anos. Vende-se comida controlada por uma kashrut que os árabes não precisam seguir, mas acabam respeitando, por tabela e falta de opção. País engraçado esse...

Chag Sameach, 59 anos não é moleza. Esses não têm sido.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

O comentário que eu não fiz

Ontem à tarde um grupo de escritores brasileiros dos mais renomados e conhecidos esteve em Tel Aviv para um bate papo com brasileiros daqui, no Centro Cultural Brasil Israel, um apartamento antigo na Shderot Chen que há algumas décadas abrigou a sede da Embaixada brasileira em Israel. Preferi ouvir os escritores a estar em uma coletiva de imprensa com o primeiro-ministro Olmert que rolou ontem! No evento estava meu "avô postiço", o Nahum Sirotsky, que também emocionou ao lembrar histórias com tantos daqueles escritores. Por conta do curto tempo para perguntas e comentários, não pude dizer o que digo abaixo. Digo aqui, porque vale a pena o registro!

Quero expressar minha emoção ao ver e ouvir aqui, sem cerimônias e sem formalidades, as mãos e as mentes de alguns dos nomes que durante boa parte dos meus 28 anos - ou pelo menos desde que eu me conheço por gente! - coloriram minha vida, me fizeram rir e chorar, me emocionaram e me ensinaram. Aliás, a expressão "desde que eu me conheço por gente" embora seja dita sempre, é muito pessoal, tem um significado especial para cada um - para mim, me conheço por gente desde que aprendi a ler. Por isso, depois de dois anos e tanto de Israel, ainda não me conheço por gente por aqui! De toda forma, obrigado a todos pela presença! Quero aproveitar também para expressar minha frustração ao encontrar, na Feira Internacional do Livro de Jerusalém, ontem, diversos títulos excelentes em português que estavam ali apenas... para ver! É raro encontrar livros em português nesse Oriente Médio. Quando encontro, não estão à venda!

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Em brancas nuvens

O presidente do Irã e eu temos algo em comum. Nós dois gostaríamos de acreditar que o Holocausto não aconteceu. A diferença é que ele consegue. Eu, não. E se tantas provas, depoimentos, filmes, histórias, museus, e infinitas menções ao assunto não bastassem, os números tatuados no braço de idosos que tiveram a sorte parcial de saírem vivos do Holocausto seriam sozinhos suficientes para criar essa diferença.

Ontem, 25 de janeiro, foi o primeiro Dia mundial do Holocausto, data criada pela ONU tarde, muito tarde, para homenagear e relembrar os seis milhões de judeus que foram sumariamente assassinados durante a Segunda Guerra Mundial, há mais de sessenta anos. Em Israel existe o dia nacional do Holocausto, Yom haShoá, comemorado com uma sirene que cala e paralisa cada um dos cidadãos do país.

O dia mundial do Holocausto não fez barulho por aqui. A única coisa que eu pessoalmente vi em referência à data foi uma vela acesa sobre uma mesa coberta com um pano preto no lobby do hotel onde eu trabalho. De resto, não se falou, não se escutou e, como acontece no Yom haShoá, ninguém parou para homenagear os ancestrais de boa parte da população. O 25 de janeiro da ONU passou em brancas nuvens.

Mas o assunto do momento em Israel é o processo que o presidente Moshe Katzav enfrenta por uma série de crimes, entre eles o de estupro, o que faz mais barulho e provoca mais indignação. Katzav chegou a sair das manchetes por um tempo mas nesta semana a Procuradoria o considerou culpado.

Em resposta, ele convocou uma coletiva de imprensa para romper o longo silêncio e responder às acusações - nas palavras do presidente, só ele sabe a verdade e todos estão errados. A coletiva foi um festival de quase uma hora de porradas no palanque, caras feias e expressões agressivas e contundentes contra a polícia, contra a Procuradoria e contra a imprensa.

Cercado de jornalistas israelenses e estrangeiros e com o discurso sendo transmitido ao vivo para as casas em todo o país, Katzav arrancou de um comentarista do Canal 2 uma reação nervosa e desmedida - gritos de revolta contra as acusações. Eu estava lá, vi tudo e por acaso gravei em vídeo um trecho da briga.



Como não podia deixar de ser, o assunto virou piada - o vídeo abaixo é ótimo (mas você precisa entender hebraico!)



O resultado foi uma chuva de críticas contra o presidente no cenário político. A população pede a renúncia imediata de Katzav - o que não aconteceu e não deve acontecer, já que ele está afastado temporariamente do cargo por três meses (até quando termina o mandato). Falei a respeito na RFI hoje.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Tel Aviv de moto

(OU: de como pode-se sair de Israel sem usar passaporte)

Tel Aviv é outro país, definitivamente. Fala-se até um outro idioma, que não tem nome específico nem sotaque definido. É um idioma colorido como as ruas, as roupas, os prédios, como o céu da cidade. Da "sin city", como eu gosto de chamar. E se Tel Aviv tem cheiro de pecado, é pra lá que eu vou. E eu fui. E fui de moto - que se cometemos um pecado, que ele seja com vento na cara...!

Passei dois dias e meio em Tel Aviv depois de muito tempo sem sair de Jerusalém. Caramba. Chegar de moto, perder-se entre as ruas cercadas de prédios que arranham o céu azulado com nuvens brancas e um sol que... putz! Esse sol de inverno que aquece mesmo. A sensação é magnífica. Sabe, magnífica? Assim. Vento na cara, aquele vento com cheiro de maresia, com poesia de cidade grande...

E tem a praia, e tem o mar, e tem as pessoas circulando sem pressa, desfilando roupas coloridas - diferente do preto ortodoxo de Jerusalém, e do preto invernal de Jerusalém. Tem muita gente. Uma festa em plenos dias quentes de inverno. Sair de casa é regra. Nem que seja para ir até o supermercado na esquina (toda esquina tem um supermercado) e aproveitar para passear o cachorro branquinho de pompom no rabo.

E Tel Aviv tem muita moto. Não é como Madrid, ou como Barcelona, claro. Mas nem é como Jerusalém. Moto em cada esquina, em cada calçada, em cada cruzamento umas quatro, cinco, esperando bem na frente dos carros o verde reluzente permitir o ronrom e o disparar das muitas duas rodas. Cultura de motos diferente, até um certo respeito pelo motoqueiro que em Jerusalém não existe.

Estive dois dias e meio em Tel Aviv - e pela primeira vez voltei com a sensação de que eu devo morar lá alguma vez. É aquela história do filme Sunscreen, que todos conhecem: live in Jerusalem once, but leave it before it makes you too hard; live in Tel Aviv once, but leave it before it makes you too soft. Voltei de Tel Aviv too soft. E estou amando isso. Fez bem - especialmente porque vi gente que andava desaparecida da minha vidinha.

Próxima oportunidade, escapo de novo pra lá. Quando der, vou de vez (se é que existe essa coisa de "de vez"), para morar!

sexta-feira, novembro 24, 2006

Vá pela sombra...

Email do escritório de imprensa do governo israelense adverte aos jornalistas que trabalham no país: existe um plano de seqüestrar repórteres judeus israelenses. E o plano tem data: amanhã, sexta-feira. Que se cuidem os arautos!

Às vezes esse mundo parece cômico demais para o meu gosto...!

[BOTA-DENTRO] E depois de curto e nada tenebroso outono, estou de volta - porque com mãe e irmã aqui por perto, o blog tinha que ficar pra depois!

terça-feira, outubro 24, 2006

O presidente e eu

Não, não vou falar do presidente Moshe Katzav e das peripécias sexuais dele. Até pensei em fazer um post a respeito, porque o assunto está em todas as conversas informais aqui em Israel. Todo mundo quer saber se ele estuprou as tais mulheres, se roubou mesmo dinheiro público etc. Mas a minha política aqui vai ser a de - por enquanto - não entrar nesse assunto. Já basta ter falado a respeito na RFI semana passada, aqui.

Vale dizer que esse papo de presidente está realmente movimentando a política por aqui, com indicações de nomes novos para ocupar a residência presidencial. E a lista tem nomes como o de Shimon Peres (que perdeu em 2000 para Katzav e, como dizem as más línguas, perde até eleição pra síndico!), Elie Wiesel (sobrevivente do Holocausto e prêmio Nobel da paz) e muitos outros. Mas por enquanto nada é oficial, porque na prática o Katzav continua no trono.

Tudo isso para dizer que o título desse post não tem nada a ver com Katzav e muito menos com peripécias sexuais de figuras públicas. O presidente do título é outro. Estive hoje com Itzhak Navon, em uma entrevista rápida mas muito bacana no escritório dele aqui em Jerusalém. Navon foi o quinto presidente de Israel, o primeiro sefaradi a ocupar o cargo, entre 1978 e 1983.

Conversamos sobre o ladino, tema do meu texto na próxima edição da Revista 18. Ele cresceu em Jerusalém na década de 1920 em um bairro onde o ladino - idioma dos judeus sefaradim - era falado nas ruas, em uma época em que os imigrantes se concentravam em locais fechados como guetos. Essas coisas não existem mais - hoje sefaradim e ashkenazim estão dispersos e misturados.

Navon cresceu ouvindo o ladino - como ele disse hoje, para aprender e manter um idioma, uma pessoa tem que ouvi-lo "da fralda até mortalha". E a entrevista, minha primeira exclusiva com uma personalidade da política israelense (já estive em coletivas e eventos com o Sharon, o Olmert, o Peres e o Bibi), foi em ladino!

A entrevista correu bem e, no final, depois que eu tirei para a matéria algumas fotos dele cercado de livros por todos os lados, pipocou de repente, daquele senhor de 85 anos, ex-presidente de Israel, a pergunta: - Quer tirar uma foto comigo? Eu tirei! E você já viu - o presidente e eu!

domingo, outubro 15, 2006

Chove, chuva

Correria para tirar roupas do varal, fechar as janelas, achar o guarda-chuva desaparecido há meses, tirar da mala de inverno uma blusa quente para poder sair de casa... Está caindo a primeira chuva do ano novo judaico em Israel.

sexta-feira, outubro 13, 2006

Que venha Simchat Torah!


[CORRERIA] Estou sem tempo agora, mas prometo escrever depois sobre esse chag!Enquanto isso, podem ler o comentário do autor do desenho acima, o ilustrador dos comics Dry Bones. Shabat Shalom!

domingo, outubro 08, 2006

Sucot? Cabanas?

Chegou Sucot, o Carnaval israelense. Não, não tem nada a ver com folia, pula-pula, serpentina e confete. Sucot é a festa das cabanas. Mas, como no Brasil, onde o ano só começa depois do Carnaval, aqui o ano judaico só começa de fato depois de Sucot. As aulas nas universidades (e as minhas, no terceiro ulpan de hebraico que vou fazer!) começam dia 22, por exemplo.

É bem por aí... Essa época, que também marca o fim do verão e do calor, é tempo de festas. Tem Rosh Hashaná (ano novo), depois vem Yom Kipur (dia do perdão), com o tão falado jejum, e logo a semana de Sucot, que acaba com Simchat Torá, a festa que celebra a alegria do povo judeu em receber as tábuas sagradas no Monte Sinai. Depois de tudo isso, finalmente o ano começa, mesmo!

Mas... festa das cabanas? Bom, em poucas palavras, Sucot é a festa da colheita. Fácil de entender: aqui em Israel é "o período no qual a produção dos campos, pomares e vinhas é colhida" (do Chabad, aqui). Como o site explica, para que as pessoas não se esqueçam de D's no momento de alegria pela fartura nas colheitas, deixam a casa durante uma semana e moram em cabanas! Ah, cabanas!

O barato desse feriado é passear por Jerusalém (ou por qualquer cidade israelense com população religiosa) e ver, nos terrenos, nos jardins, em volta dos prédios, as sucot, as tais cabanas, montadas para a festa. As pessoas comem e dormem nas cabanas durante toda a semana de Sucot! Quem mais curte a farra são as crianças - como no meu prédio (onde fizeram quatro cabanas).

E como eu contei no pé do último post, passeando por Mea Shearim, bairro ultraortodoxo judaico daqui de Jerusalém, resolvi parar e dedicar meia hora para fazer essas fotos. Gostei do resultado. No mesmo dia, à noite, fui à Cinemateca ver Ushpizin (palavra em aramaico para "convidados") - no filme, as primeiras cenas mostraram exatamente o que eu tinha fotografado mais cedo - a minuciosa escolha das "quatro espécies"!

Aliás, recomendo o filme, especialmente para esses dias de festa das cabanas. A película é passada durante o feriado de Sucot aqui em Jerusalém e mostra a rotina de um casal que se reaproximou da ortodoxia e, às vésperas do feriado, não tem um centavo pra montar a sucá e comprar as "quatro espécies". Eles acabam recebendo convidados especiais...

Então, chag sucot sameach!

[DIDÁTICO] Do meu shutaf, o Bean, "nove maneiras de saber que é Sucot", aqui.
[HQ] Do Dry Bones uma tirinha bem-humorada sobre Sucot (e uma explicação).

[TELONA] Do filme Ushpizin, o site oficial, com várias informações, aqui.
[RELIGIÃO] Mais sobre Sucot no site do Chabad, aqui. "Quatro espécies"? Aqui!

sexta-feira, outubro 06, 2006

[curtas do 23a]
Paz, gasolina e palestinos

Da série "notícias que precisam ser sabidas"

De hoje no Jerusalem Post: "Paz e Autoridade Palestina firmam contrato de fornecimento de gasolina". Explicando: a Paz é uma empresa israelense de combustíveis. O contrato é oficialmente o primeiro entre uma empresa de Israel e a Autoridade Palestina desde que o Hamas assumiu o governo por lá, em janeiro. O acordo foi assinado ontem à noite e, como a matéria diz, acontece em um momento em que negociações políticas entre Israel e os palestinos estão congeladas. Também segundo a matéria do jornal, o ministro interino das Finanças da AP, Samir Abu Aisha, contou que foi ameaçado de morte por conta do contrato...

Bom fim de semana, Shabat Shalom. Chag Sucot Sameach.

[FOTOS] Fiz um passeio ontem de moto por Mea Shearim, o bairro ultraortodoxo judaico de Jerusalém. Véspera de Sucot é dia de comprar as "quatro espécies". Em breve (quando a internet de casa deixar!) vou colocar as fotos que fiz por lá!

[OUTRA FOTO] A Tici, gaúcha linda e chamudá que mora aqui em Jerusalém também (e que eu conheci no Rio há alguns anos!) colocou no flog dela uma das minhas fotos do Kotel. A propaganda não é da minha foto, mas das coisas lindas que ela escreve e das fotos ótimas que ela tira! Tici, adoro você!

domingo, outubro 01, 2006

Águas de março

Israel vai saindo do verão. Primeira medida: voltar, agora, às duas da manhã do domingo, os relógios para 1AM. Acaba o horário de verão, acordamos no escuro ainda. Em algumas semanas, começa o frio. Pelo menos agora Israel e o Brasil têm 5 horas de diferença horária, apesar dos 17 mil quilômetros de sempre.

Tzom kal aos que jejuam hoje. Gmar chatimá tová. No Brasil, é dia de eleições - votem com consciência dessa vez...

[PARECE QUE FOI ONTEM] Outro dia o verão estava só começando, dando um sopro quente desavisado em uma manhã de junho. O tempo está voando...
[FÉ EM IMAGENS] (update) Estive no Kotel na madrugada de domingo, antes do amanhecer, até que ficou claro na primeira manhã de horário de inverno. Fiz algumas fotos por lá, de muita gente diante do Muro. Rostos e gestos de fé. Uma foto aqui. Todas aqui.

quinta-feira, setembro 21, 2006

De repente, 5767

Ano novo em Israel não tem o mesmo clima de ano novo no resto do mundo. Não tem neve porque cai no verão - ainda que seja o finzinho do verão. Não tem Papai Noel e corrida às lojas porque aqui não existe Natal. E, claro, a contagem é bem outra. O povo judeu entra, a partir do próximo fim de semana, em 5767.

Ano novo aqui em Israel tem um sabor de festa familiar. Não é como no mundo todo, onde o reveillon é momento de tomar porres, pular ondas e fazer promessas e planos que nunca se cumprirão! Ano novo judaico é evento familiar - suspeito que por isso sinto tanta falta das comemorações com a minha avó e toda a minha família, em São Paulo...

Ano novo em Israel é tempo de fazer um balanço pessoal e de, entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, os chamados Yamim Noraim (dias terríveis) pensar o que se fez de bom e de ruim no ano que vai acabando. E de, no Dia do Perdão, pedir desculpas - a D's e às pessoas que nos cercam - pelas coisas ruins que fizemos (quem não faz?)

Ano novo em Israel também é momento de balanço da população. É nessa época que o Escritório Central de Estatísticas revela quantos somos. Somos 6 milhões, novecentos e noventa mil e setecentos israelenses. Somos 5,3 milhões de judeus, somos 1,4 milhão de árabes. É época de saber o crescimento da população, que se mantém em 1,8% ano ano desde 2004...

Ano novo em Israel é tempo de mensagens do presidente Moshe Katzav, do primeiro-ministro Ehud Olmert, que são espalhadas, distribuídas, traduzidas e lidas por judeus no mundo todo. É tempo de maçã com mel, do toque do shofar, cabeça de peixe, bolo de mel...

De repente, é ano novo em Israel. De repente, 5767. A todos os judeus que passam por aqui e a todos aqueles que não são judeus, shaná tová umetuká - ano feliz e doce. O mundo faz aniversário, é tempo de que todos comemoremos!

[ÍNTEGRAS] Se você quiser ler a íntegra das mensagens de Rosh Hashaná do premiê e do presidente, deixe o email nos comentários e eu mando!

segunda-feira, setembro 11, 2006

Onze de setembro todo dia

Nos últimos dias estive pensando sobre o que escreveria para marcar o quinto aniversário do onze de setembro. Lembro que em 2001 recebi no consulado dos EUA um visto para viajar para Nova York que valia entre o fim de agosto e o fim de setembro. Por uma dessas circunstâncias da vida, não fui. Fiquei em São Paulo e cobri de lá o nine-eleven.

Estava no ônibus, a caminho do trabalho em uma terça-feira ensolarada de rodízio, quando meu pai ligou no celular avisando que uma das torres gêmeas tinha sido atingida por um avião. Desci do ônibus e tomei outro caminho. Havia muitos boatos e bastante desinformação. No consulado norte-americano em São Paulo, portas fechadas.

Cinco anos se passaram e hoje estou em outra realidade. Vivo há dois anos e pouco em um país que conhece de perto a ameaça terrorista travestida de suicídios jihadistas. A estratégia ganhou força na segunda intifada, que começou um ano antes dos atentados às torres gêmeas, no setembro da visita de Ariel Sharon que foi usada como pretexto para a revolta.

Cinco anos depois, às vésperas de mais um onze de setembro, uma pesquisa publicada no Jerusalem Post mostra que mais e mais palestinos apóiam o terrorismo. Não é de se surpreender, verdade seja dita. Depois da segunda guerra do Líbano e dos resultados do conflito que se estendeu por trinta e poucos dias, esperar um apoio amplo à paz entre palestinos é sonho.

E a sensação é a de que sonhar com a paz é perda de tempo em Israel. Já virou lugar-comum ouvir de israelenses que eles deixaram de acreditar na paz. Sem generalizações. Apenas um sentimento compartilhado de cansaço com um conflito que não se estende, mas se arrasta, há longas décadas. Gerações já viram e entenderam que paz é motivo de risada...

Cinco anos depois do onze de setembro, morando em Israel, observo as coisas a partir de outra perspectiva. O susto com as imagens que pareciam de filme há cinco anos passou. Aqui em Israel lida-se com o assunto segurança diariamente - ao subir em ônibus, ao entrar em qualquer edifício, ao caminhar pela rua.

Um texto muito interessante do Jerusalem Post, no caderno de fim de semana, tenta explicar porque o approach israelense não consegue adeptos nos EUA do nine-eleven. Comparar os dois países é impossível - os números de lá são esmagadoramente maiores do que os daqui em população, circulação de pessoas em aeroportos etc...

Mais: aqui em Israel vivemos a necessidade de dedicar atenção a qualquer objeto suspeito. O cidadão sabe que ignorar uma mochila esquecida num ônibus pode significar a diferença entre estar ou não vivo no segundo seguinte. O israelense sabe como e a quem recorrer em um caso assim. E, o mais importante: recorre, de fato.

Onze de setembro... Qualquer pessoa, em qualquer ponto do planeta, lembra o que estava fazendo quando as torres foram atingidas. Em Israel a memória de atentados terroristas e de pessoas próximas que foram mortas em cafés ou viajando de ônibus fazem parecer que vive-se aqui um onze de setembro a cada dia.

quarta-feira, agosto 23, 2006

... e quem perdeu a guerra?

Se a questão é mesmo essa - quem ganhou a guerra - o escritor israelense David Grossman dá uma resposta à altura*. Uma das personalidades de destaque em Israel, autor de diversos livros e conhecido pacifista, Grossman é pai de um dos soldados mortos durante os conflitos que se desenrolaram no sul do Líbano nos dias que antecederam o cessar-fogo. O texto, publicado no francês Le Monde, é uma carta ao filho. No mínimo, dá a noção de quão humana é a guerra. Um trecho: Você dizia que caso houvesse uma criança no carro que você acabava de deter, você tentava antes de tudo tranqüilizá-lo e fazê-lo rir. E você se lembrava (...) do medo que você lhe causava, e do quanto ele o detestava, com razão. Contudo, você fazia todo o possível para tornar-lhe mais fácil aquele momento terrível, enquanto você cumpria o seu dever, sem compromisso.

E sobre o Líbano, algumas poucas linhas, que eu reproduzo aqui sem o nome do autor, atendendo a pedidos. O que ele disse me emocionou em especial e chamou minha atenção. Para quem acha que o país foi totalmente destruído, como a mídia tendenciosa ensina, vale ler e reler. O autor vive em Beirute e dá uma noção do pós-guerra. Vai na íntegra, exatamente como veio: Obrigado pela mensagem. Passamos por mais uma guerra e esperamos que não retorne, pois a situação ainda é delicada. Quanto a nós, residimos em bairro que não era zona de combate, foi especificamente bairros xiítas, escutávamos todos os aviões e bombardeios, mas estamos bem, onde não havia bombardeio a vida está correndo normal, este é o Líbano. Com o cessar-fogo dia 13 passado logo em seguida começaram a limpar as ruas e o país está voltando ao normal, nova reconstrução. Novamente obrigado e um grande abraço.

[*] Texto exclusivo para assinantes UOL. Se você quer ler o texto mas não pôde acessar, deixe um comentário com o seu email e eu envio assim que possível.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Quem ganhou a guerra?

A pergunta do momento é quem, afinal, ganhou a guerra. Não tanto porque isso realmente importa, mas porque ficou a sensação de que o conflito entre Israel e Hizballah terminou sem vencedores. Apesar de os dois lados cantarem vitória, a verdade é que nem os soldados israelenses nem os membros do grupo libanês têm razões suficientes para erguer o punho fechado.

Pior: os israelenses que voltaram do campo de batalha no sul do Líbano estão contando por aqui, de volta em casa para uma folga que não deve durar muito tempo, coisas que a mídia israelense não cobriu, que os jornalistas estrangeiros não disseram, algumas a que sequer os blogs tiveram acesso - como por exemplo o fato de que muitas vezes eles avançavam sem ter um objetivo definido, sem saber o que deveriam fazer exatamente.

Existe em Israel agora uma sensação muito forte de que o país saiu perdedor. Não apenas pelo número altíssimo de soldados mortos em um conflito relativamente curto contra um grupo terrorista (e não um Exército constituído, como aconteceu em outras guerras), mas também pelo fato de que sabe-se muito bem que o objetivo da guerra - acabar com o Hizballah - não foi nem de longe atingido.

Não acho que isso, sozinho, seja sinal de que o Hizballah tenha saído vencedor, por outro lado. Não é. Mas se os fundamentalistas do Nasrallah lançaram 4 mil mísseis contra Israel, e a Inteligência daqui falava em um arsenal de 12 mil mísseis antes do conflito, faltam ainda 8 mil, apontados para cá. Mais: o Hizballah insiste que não vai se desarmar, uma das condições da resolução 1701, a mesma que impôs o cessar-fogo.

E aí, como é que fica? Politicamente, existe o entendimento de que se Israel não voltar à guerra, o governo de Olmert pode cair. E se cair, cai com razão, porque arrastou o país para um conflito que teve mais contras do que prós. Matou e feriu muitos civis, expôs soldados a perigos excessivos e não conseguiu abalar o Hizballah a ponto de diminuir a ameaça que representa.

Estrategicamente, por outro lado, se Israel voltar para o combate as coisas terão que ser diferentes - ouvi essa semana de um oficial da Inteligência que essa guerra foi, sozinha, diferente de todas as outras. Os ataques deverão ser intensos contra o Hizballah, mas devem evitar atingir civis - de fato os grandes perdedores dessa guerra foram o Líbano e o povo libanês.

Israel precisa aprender como lidar com um grupo que se esconde entre civis para atacar os civis do outro lado. É o desafio que se impôs ao "quarto exército mais poderoso do mundo" com essa guerra. E não é o único. Quem ganhou a guerra, afinal? Eu conto quando a guerra acabar, de fato.

[ÁUDIO] Falei sobre esse mesmo assunto na RFI, aqui. Todas as entradas aqui.
[OPINIÃO]
Uma "vitória" do Hizballah?, de Bernard Haykel, aqui

terça-feira, agosto 15, 2006

Guerra de propaganda

Começou a valer o cessar-fogo da ONU. Nas palavras da imprensa local, estamos vivendo uma "tranqüilidade tensa". Aqui em Jerusalém, da mesma forma como não se sentia a guerra, não se sente o fim das hostilidades, a não ser nos comentários comuns em conversas com taxistas e na rua.

Uma coisa nesse momento me chama especialmente a atenção - a nova guerra de propaganda que está acontecendo desde a assinatura do cessar-fogo. Israel e o Hizballah abaixaram as armas mas não abriram mão das estratégias de propaganda.

Já cansamos de ver imagens de folhetos caindo sobre o Líbano, nos quais Israel culpa o Hizballah pelos danos causados às cidades, agora que a população está voltando ao sul do país. Nos folhetos aparece o líder do Hizballah, Hassan Nasrallah, e inscrições em árabe explicando que ele, com o seqüestro dos soldados, provocou a guerra.

Por outro lado, o Hizballah faz a sua propaganda, cantando vitória em uma guerra que não terminou com vitoriosos, mas foi interrompida por um cessar-fogo imposto pelas Nações Unidas com a resolução 1701. As ruas de Beirute estão cheias de pessoas distribuindo chá e doces em sinal de vitória do Hizballah.

Agora é assim. Os libaneses voltam para o sul, os israelenses voltam para o norte. As populações saem dos abrigos e a rotina deve lentamente voltar ao normal. Fica apenas a pergunta: que tipo de cessar-fogo é esse e quanto tempo ele vai durar?

sábado, agosto 12, 2006

Uma resolução, enfim

O Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução, de número 1701, com base no que foi rabiscado há uma semana. O texto pede o fim dos confrontos entre Israel e o Hizballah e a retirada das tropas israelenses do Líbano. Estou acompanhando as reações e depois escrevo por aqui. Mas tanto o premiê libanês, Fuad Siniora, como o primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, já anunciaram que vão adotar os termos aprovados pelas Nações Unidas. Na teoria, assinaturas. Na prática, é esperar para ver.

[MAIS] Leia os principais pontos e a íntegra da resolução 1701 da ONU.
[ANALISANDO] Textos que valem a leitura, sobre a resolução: Not so bad in theory. An unmitigated disaster, UN resolution meets gov't goals, How to cease the fire.
[CONTAGEM] E hoje a guerra entre o Hizballah e Israel completa um mês.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Uma análise

É o velho papo: se um judeu fala por Israel, é tendencioso; se um árabe critica Israel, é óbvio. Por isso, vale ler a coluna de Ali Kamel, de origem árabe. Ele não fala por Israel e nem critica o Estado judeu. Faz apenas uma análise limpa e embasada sobre o ciclo dos acontecimentos no Oriente Médio. Infelizmente, parece estar certo até nas previsões.